MULHER
MARAVILHA

O peso do trabalho invisível

O esgotamento físico e mental das mulheres que sustentam a Economia do Cuidado

Um famoso provérbio africano alerta: “Para educar uma criança é preciso uma aldeia inteira”. Entretanto, essa é uma realidade completamente distante para 11 milhões de mulheres brasileiras. Um estudo da FGV registrou: entre 2012 e 2022, a estimativa de pessoas que criam filhos sem a divisão de responsabilidades com o genitor aumentou em, pelo menos, 1,7 milhão de mães. Sendo assim, o desafio de criar e desenvolver essas crianças para o mundo fica ainda mais pesado, uma vez que está única e exclusivamente nos ombros dessa figura.

Priscilla Mazucatto durante a gravidez até o primeiro mês de nascimento do filho.
Foto: Arquivo pessoal

Priscilla Mazucatto é uma dessas mulheres, que precisou se desprender da vida que tinha antes, focada nos objetivos pessoais e de carreira, para assumir um novo e extremamente desafiador papel.

“Eu nunca pensei em ser mãe, era algo que eu não ligava mesmo. Quando eu engravidei, eu tinha me mudado para a cidade do Rio de Janeiro e trabalhava como comissária de bordo”, relata Priscilla.

Ela conta que, na época, tudo estava exatamente como ela desejava: morava em uma ótima localização, a dois quarteirões da praia, trabalhava com algo que gostava, era constantemente visitada pelos amigos e, além de tudo isso, vivenciava um relacionamento estável. A notícia da gravidez veio como uma grande surpresa, mas, ao lado do genitor, eles optaram por formar uma família.

Entretanto, em pouco tempo, o cenário já era outro: logo no primeiro mês de gestação, ela foi afastada do trabalho – visto que, na aviação, não é permitido que as mulheres continuem exercendo a profissão por conta da pressurização e do raio X. Logo depois, soube que a mãe estava com um câncer no útero e, em paralelo, descobriu diversas incoerências do, até então, parceiro em relação aos compromissos estabelecidos pelo relacionamento. Parece muito para ser administrado simultaneamente por apenas uma pessoa, mas esse início veio como um aviso de todas as cargas físicas e mentais que seriam atribuídas à Priscilla. 

Priscilla Mazucatto amamentando o filho.
Foto: Arquivo pessoal.

Maíra Liguori, pesquisadora e diretora da ONG Think Olga, garante que são inúmeras as consequências desse excesso de deveres e responsabilidades atribuídos às mulheres:

O estudo Tempo de Cuidar, realizado pela OXFAM, afirma que mulheres e meninas, no mundo todo, dedicam um total de 12,5 bilhões de horas diariamente ao trabalho do cuidado não remunerado. Nesse sentido, Maíra destaca que o termo Economia do Cuidado é usado para definir e estudar as contribuições feitas pelas mulheres nos trabalhos de produção e manutenção da vida.

“A gente coloca dentro desse conceito as horas dedicadas nos trabalhos reprodutivos, de gerar a vida, gestar, parir, amamentar, cuidar daquele bebê e, também, tudo aquilo que vem depois – cuidar da casa, preparar comidas, lavar roupa, passar e guardar; tarefas como cuidar dos idosos, cuidar dos enfermos não hospitalizados, das pessoas com deficiência”. A Economia do Cuidado analisa que toda pessoa precisa de cuidado e, portanto, de alguém para cuidar, e essa contribuição é majoritariamente realizada por mulheres. 

A MULHER MARAVILHA É, NA VERDADE, UMA MULHER EXAUSTA

Priscilla Mazucatto segurando o filho enquanto carrega o lixo. Foto: Arquivo pessoal.

Não raramente, atribuímos o rótulo de “guerreira”, “mulher maravilha” ou “super mulher”, em tom de elogio. A lógica funciona proporcionalmente: quanto maior o número de atividades que uma mulher assume, preferencialmente no menor tempo, mais ela é considerada um exemplo para as demais. Na realidade, essa exaltação do trabalho feminino não favorece ou engrandece em nenhum aspecto as mulheres, mas sugere a manutenção da isenção de responsabilidades aos homens.

“A gente tem na nossa sociedade, na nossa cultura ocidental como um todo, a mulher como sendo essa cuidadora inata – como se nós nascêssemos com esse dom natural de cuidar, quando, na verdade, o que a gente tem é uma cultura que nos prepara, todos os dias, para que nos tornemos as cuidadoras do amanhã.  Desde quando a gente nasce, a gente ganha uma boneca, a gente aprende a cuidar dela, a gente imita a mãe que cuida, a gente prioriza as brincadeiras do cuidado versus as brincadeiras de risco, que são mais oferecidas para os meninos – e isso eu digo como cultura e sociedade”, aponta a pesquisadora da Think Olga. 

Arte: Gabriel Fortunato

Além disso, a própria negligência dos homens induz a essa dinâmica das mulheres, em que elas se sentem (e efetivamente estão) responsáveis por todos os cuidados dos filhos. Maria Marta Picarelli Avancini, mãe solo de dois adolescentes – sendo um deles, uma jovem com Síndrome de Down – conta como foi assimilar a alteração genética da filha e as expectativas que vivenciou sobre o ex-companheiro: “Lembro que já tínhamos conversado sobre essa possibilidade antes do nascimento dela (filha), e ele pareceu ter alguns preconceitos. Quando as enfermeiras me deram a notícia, poucas horas após o parto, eu não soube o que fazer. Me senti sozinha. Decidi esperar para contar, por medo da resposta que poderia receber dele”.

A reação do ex-marido, no fim, reafirmou o receio dela: “Quando eu dei a notícia, ele estava com a nossa filha nos braços. No mesmo momento, se levantou e passou o bebê para o meu colo. Nunca me esqueci dessa cena, porque, para mim, foi a concretização que, a partir daquele momento, seria comigo mesmo”, conclui.

No caso de mães solo negras, a sobrecarga é ainda mais acentuada, destaca Maíra:

SIM PARA O NASCIMENTO, NÃO PARA A VIDA EM QUESTÃO

Outro aspecto importante é que, de acordo com a maioria das entrevistadas para esta reportagem, existe um padrão frequente nos casos de maternidade solo, em que o genitor incentiva a gestação mas, após o nascimento da criança, não assume qualquer responsabilidade. 

Isso se deve, dentre outras motivações, às ideias e ações que não defendem a infância como um lugar seguro, mas lutam pelo direito ao nascimento a qualquer custo. Em relação às mulheres, a negligência acontece, inclusive, no fato de não existirem quaisquer alternativas legais a não ser a continuidade da gestação.

Em agosto de 2023, aconteceu no Supremo Tribunal Federal a ação que discute a descriminalização do aborto até a 12ª semana de gestação. A ministra Rosa Weber, relatora do caso, se posicionou favorável. 

Um dos pontos levantados pela ministra foi justamente a discriminação disfarçada de proteção às mulheres: “A título de proteção da mulher na sua dimensão biológica mais distintiva, a gestação, e sob o véu da legalidade aparente, encobrem-se autênticas discriminações que impõem papeis sociais às mulheres, sem qualquer margem de respeito e consideração à sua liberdade e autodeterminação pessoal, afastando-as da cidadania plena e igualitária na construção de uma sociedade mais justa, livre e solidária”. 

Letícia Bassit amamentando o filho.
Foto: Reprodução/@leticiabassit

A Pesquisa Nacional de Aborto de 2021 indica que uma a cada 7 mulheres de até 40 anos já fez um aborto – desse número, 67% já são mães. Nesse sentido, compreendemos que essas pessoas vivenciam a maternidade de perto e reconhecem que a decisão pelo aborto é válida, inclusive, como uma forma de cuidar melhor das próprias famílias, visto que o Estado e a própria sociedade civil não oferecem opções dignas de auxílio, suporte e estrutura financeira e emocional para esse grupo de pessoas – tanto mães, quanto filhos. 

Muitas das pessoas que são impedidas de realizar um aborto, devido a um meio social, legislativo e culturalmente atrasado quanto aos direitos das mulheres, acabam por conhecer de perto o aspecto mais solitário da maternidade, sem reforços necessários. 

É esse o caso de uma das nossas entrevistadas, que confiou a nós a própria história, mas pediu para não ser identificada: “Eu tive a coragem de comprar o Cytotec (remédio abortivo) e não tive coragem de tomá-lo, porque eu descobri que todas as minhas amigas, aproximadamente 90% delas, já tinham abortado. E a gente só sabe disso na hora, porque todas elas tinham uma história triste em relação a isso, principalmente as que necessitaram de ajuda médica”. 

Nesse sentido, fica evidente que, mesmo em casos de extrema vulnerabilidade, o julgamento moral se sobrepõe à ética profissional. Enquanto a mulher segue, muitas vezes, refém de decisões externas sobre tornar-se mãe ou não, os homens continuam escolhendo renunciar à paternidade, sem que sejam questionados por isso. 

“AMO SER MÃE, MAS ODEIO A MATERNIDADE”

O discurso de amar o “ser mãe”, mas repudiar a maternidade, muitas vezes, não é compreendido. Porém, ele foi altamente reverberado e vivenciado na prática, longe das idealizações sociais, por muitas das entrevistadas que aceitaram o convite de falar sobre esse recorte tão impactante e transformador que é a maternidade.

Bruna Alcantara, jornalista, artista visual, idealizadora do projeto Mães Também Gozam e mãe do Tom, traz um relato honesto sobre essas expectativas divergentes da realidade:

Eu amo o meu filho profundamente, mas a função de maternar é muito pesada, porque ela priva a minha carreira como jornalista – uma vez que as redações não estão preparadas para a gente – priva o meu direito de viajar, de ir, voltar e fazer o que eu quiser. Às vezes, eu não quero fazer nada, mas eu estou ali fritando o frango com o Tom do jeito que ele quer comer. As mínimas coisas do dia a dia são muito cansativas.

Bruna Alcantara

Letícia Bassit, autora do livro “Mãe ou Eu Também Não Gozei”, escritora, atriz, pesquisadora, compositora e mãe de Pedro e Luna, comenta sobre a diferenciação desses termos: “Me tornei mãe em 2017. Na verdade, eu engravidei. Eu falo ‘mãe’, mas ao mesmo tempo eu me pergunto: será que quando eu engravidei eu já era mãe ou só depois que eu pari que eu me tornei mãe?”.

Letícia Bassit orientando o filho no dever de casa.
Foto: Reprodução/@leticiabassit

Ela completa o pensamento evidenciando diversas mudanças que chegam junto ao bebê, e que se tornam muito desafiadoras quando vivenciadas de forma solo: “Dificuldade toda mulher ou pessoa que engravida têm, porque o sistema e a sociedade não abrem espaços de cuidado e acolhimento, não existe rede de apoio para essa pessoa que está parindo e criando. Imagina a mãe solo: como faz para trabalhar, estudar, levantar da cama com o corte da cesária?”

“Qual é a possibilidade de continuar pesquisando, trabalhando, estudando, para uma mãe solo? Se para a mãe que tem um companheiro ou uma companheira já é difícil, com rede de apoio, imagina sozinha? Portanto, são dificuldades práticas, a longo prazo, medo, solidão, dificuldades mais abstratas e concretas, são muitas”, completa.

Sobre o livro “Mãe ou Eu Também Não Gozei”, Letícia explica que foi o resultado de uma necessidade de escrever para expurgar a dor, o medo e a solidão. A obra relata, de forma crua, intensa e poética as experiências e sentimentos que ela viveu durante a gestação, parto e puerpério.

“Quem lê, percebe que tem tempos muito diferentes de uma grávida – que é um tempo ralentado, é um tempo lento, é um tempo que dá para respirar – e depois do filho nascer, é um tempo rápido, é um tempo que você tem que servir casa, você tem que dar conta, você tem que fazer um bebê sobreviver. Então, tem uma dinâmica fragmentada no livro, com tempos muito diversos, que tem a ver com esse processo”, conclui a escritora.

De certo, mesmo em famílias nas quais os pais permanecem em um relacionamento estável, a sobrecarga persiste sob a mulher.

Com uma narrativa fragmentada e não linear, este livro é o percurso de uma mãe solo e sua gravidez não planejada com quatro possibilidades de paternidade. Se o corpo materno não pertence mais ao tempo, como a narradora afirma, situa-se na encruzilhada: nascer e morrer; gozar e não gozar; ter ou não a possibilidade de recusar um filho. Mãe ou Eu também não gozei transita entre a poesia e a prosa poética, entre o fluxo de consciência e os diálogos, revelando a espera de uma criança por uma mãe solo. "Uma mulher (ou todas as mulheres) grávida da multidão".

 Esse trabalho não remunerado, muitas vezes identificado socialmente como o exercício do cuidado e amor materno, sustenta a existência de todos os demais trabalhos com remuneração. Se a exaustão dos corpos femininos não fosse normalizada e, por vezes, exaltada, a ideia do coletivo como fator fundamental para o desenvolvimento de uma criança poderia ser finalmente considerada.

Entretanto, neste momento, a aldeia de ao menos 11 milhões de crianças é a própria mãe, se desdobrando em diferentes papéis, todos os dias.