Para além da maternidade, existem outras questões, também complexas, que precisam ser administradas na vida das mulheres: trabalho, vida pessoal, questões de saúde e o equilíbrio com outros âmbitos que compõem a vida delas, como hobbies que auxiliam na estabilidade emocional e, por consequência, no pleno desenvolvimento dos filhos.
Daniele Linhares, psicóloga perinatal, explica que para existir um filho saudável, é necessário, primeiramente, existir uma mãe capaz de considerar a si mesma e explorar interesses para além das obrigações diárias.
Ninguém imagina o que uma mulher vivencia em meio à rotina de criação e desenvolvimento de um ser humano. A exaustão materna pode levar até a um burnout parental. Nesse sentido, a possibilidade de exercer outros papéis é fundamental – quanto mais essa mulher consegue se dedicar a diferentes áreas, que não o maternar, melhor é a qualidade da condição emocional em que ela se encontra e os recursos que dispõe para cuidar do próprio filho.
Daniele Linhares
Solange Souza Machado, mãe solo de Vitória, comenta que abdicou da profissão quando soube que estava grávida. Atualmente, trabalha como autônoma com o objetivo de determinar os próprios horários, mas não se sente realizada com a escolha: “Eu abdiquei da parte profissional e de muitos outros aspectos para fazer o que acreditava ser o melhor para a minha filha. Hoje, ela tem qualidade de vida, então eu consegui muito mais do que esperava. Por isso, não vivencio culpa relacionada a ela. Talvez, no meu caso, a culpa seja realmente pela ideia de que eu poderia estar melhor profissionalmente e não estou porque abri mão de tudo”.
O caso de Solange não é único, e parte desse impasse em relação à conciliação entre filhos e trabalho vem de fatores externos, como a desigualdade de gênero no ambiente corporativo – uma pesquisa do Ibre (Instituto Brasileiro de Economia) da FGV demonstrou que mães solo têm maiores desafios de inserção no mercado de trabalho. Ainda, mesmo quando conseguem ultrapassar as barreiras, essas mulheres têm renda média inferior às pessoas casadas e com filhos.
O levantamento apontou que, no quarto trimestre de 2022, mais de 30% das mães solo de filhos de até cinco anos estavam fora da força de trabalho no Brasil. Nesse cenário, a informalidade é um dos reflexos das dificuldades de inserção. Ainda que em trabalhos autônomos exista maior flexibilidade para que as mulheres consigam administrar filhos, casa e trabalho, estatisticamente as rendas tendem a ser menores, em comparação às vagas de carteira assinada ou CNPJ.
Gabriela Gabira, artista independente e mãe solo do Theo, também precisou abrir mão do CLT para conseguir se dedicar à maternidade, mas, apesar da instabilidade financeira, comenta os benefícios práticos dessa trajetória não tradicional: “Eu acredito que se ainda estivesse trabalhando no CLT, eu teria dificuldade em lembrar que, além de mãe, eu sou uma mulher, artista, com muitos sonhos. Quando eu trabalhava com carteira assinada, sentia dificuldade de me ver enquanto Gabriela”.
Gabriela ao lado do filho Theo.
Foto: Arquivo pessoal
Trabalhar com arte é completamente diferente de estar em um escritório. É algo que exige que você coloque para fora as suas emoções. No meu trabalho, eu falo sobre a maternidade, mas eu também falo sobre a minha visão de mundo, vida, sexo, e são essas coisas que me resgatam todos os dias.
Gabriela Gabira
Um estudo divulgado pelo IBGE, no ano de 2021, destacou que a remuneração do trabalho é, em média, 22% menor para mulheres em detrimento dos homens. Em cargos gerenciais, essa diferença aumenta para 38%. André Simões, analista da Gerência de Indicadores Sociais do IBGE, em entrevista ao G1, comentou sobre uma das barreiras que distanciam as mulheres de remunerações mais coerentes: “Na esfera cultural, a mulher ainda é vista como a pessoa que deve assumir a função reprodutiva e de cuidados domésticos, enquanto os homens ainda são encarados como os provedores do lar”.
Nesse sentido, os estigmas sociais, a desigualdade de gênero no aspecto salarial e a inflexibilidade do mercado reduzem a qualidade das experiências femininas no âmbito institucional. Isso faz com que a receptividade a esse público seja baixa e muitas mulheres recorram à informalidade como brecha entre a possibilidade de estar ativa no mercado e, simultaneamente, se responsabilizar pela criança. Em meio a tudo isso, se manter criativa e ter conhecimento do próprio senso de individualidade se tornam desafios que, principalmente, as mães solo vivenciam.
O termo maternalismo foi traduzido por Vera Iaconelli, psicanalista, mestre e doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) como “o discurso através do qual a sociedade justifica e reitera o lugar das mulheres – reduzidas à função de mães e trabalhadoras domésticas não remuneradas”.
Por meio desse padrão social, após se tornarem mães, muitas mulheres acreditam que não podem ou, ainda, não devem estabelecer relacionamentos casuais ou românticos. Até mesmo dos amigos esse distanciamento acontece, o que corrobora para o adoecimento psicológico.
O isolamento vai levar a uma mudança na autopercepção de identidade. Esses processos, de certa forma abruptos, são capazes de aumentar as chances de uma potencial crise e o desencadeamento de transtornos de ansiedade e depressivos.
Daniele Linhares
Uma pesquisa do Portal Mommys, divulgada em 2022, garante que mais de 60% das mães brasileiras experimentam cansaço e sobrecarga em meio à rotina. Ainda, apenas 35% praticam atividade física e 30% possuem algum hobby. Os dados apontam não apenas para o excesso de atividades que contemplam o cuidado com a família, mas também para a negligência com o próprio bem estar.
Há, entretanto, mães que conseguem, gradativamente, reverter a lógica do maternalismo e abrir espaço para relacionamentos e novas vivências, fatores esses que impactam diretamente, inclusive, na relação com os filhos – de forma positiva.
Michelle Oliveira, fotógrafa, empreendedora e mãe do João, comenta a importância de compartilhar a vida com uma parceira após tornar-se mãe: “Eu relutava muito para deixar outra pessoa fazer algo por mim ou pelo meu filho. Não conseguia permitir uma troca ou uma divisão de tarefas. Foi quando eu conheci a Marina, e a gente começou a se relacionar. Para qualquer coisa, eu falava: ‘pode deixar, eu lido sozinha’, e ela me questionava: ‘por que você lida sozinha se eu estou aqui? Vamos lidar juntas’. Foi nesse momento que comecei, aos poucos, a me permitir relaxar”.
Michelle à direita, Marina (esposa) à esquerda e João – filho de Michelle. Foto: Arquivo pessoal
Gabriela Gabira comenta que, para ela, esse suporte veio através dos amigos: “São eles que me olham e enxergam um indivíduo completo, muito mais do que só uma mãe. Eles me incentivam, estão sempre falando que vou ter futuro com as minhas músicas, me lembram que eu sou uma pessoa boa e, principalmente, não ficam apenas ressaltando o quão forte eu sou, porque esse ser forte é extremamente cansativo. Eu não escolhi ser forte, eu precisei ser”.
Nesse sentido, ter alguém que reconhece os esforços diários de uma mulher e não apenas sustenta a ideia de que essa sobrecarga é motivo para elogios, torna a trajetória mais leve: “Eles vêem minhas fragilidades e inseguranças, e quando eu preciso chorar, são essas as pessoas que conseguem ficar e me ouvir”, completa.
Por um lado, muitas mães deixam de investir em tempo de qualidade com amigos ou na possibilidade de se abrir para relacionamentos amorosos por medo de comentários externos. Em entrevista concedida à BBC, Vera Iaconelli aponta que o aumento do termo mãe narcisista é um sintoma do julgamento moral e da leitura que as pessoas têm da maternidade: “A ideia de mãe narcisista tem muita relação com essa penalização da mulher que quer uma vida para além dos filhos. Em geral, a mãe narcisista não faz nada muito além do que um pai comum faria”.
“Não só mulheres, mas também os homens e, com certeza, a sociedade como um todo, têm muito a ganhar saindo da mentalidade maternalista”, destaca Vera.
Em maio de 2023, Dia das Mães, a apresentadora Angélica tornou-se um dos assuntos mais comentados da internet – isso porque em um post no Instagram, ela sugeriu: “Quer surpreender a sua mãe? Dê um vibrador de presente”.
A postagem revelou um grande número de pessoas insatisfeitas e desconfortáveis com o assunto. No total, foram mais de 12 mil comentários, e a maior parte em tom de crítica. “Existe a linha de pensamento que a mãe é um ser puro, sem vontades e desejos”, explica Bárbara Bastos, terapeuta sexual e sexóloga, em entrevista à Marie Claire. “Esquecemos, com o tempo, que essa mulher não é só mãe”.

Bruna Alcantara com o lambe-lambe de "Mães Estudantes Também Gozam".
Foto: Reprodução/Instagram @brunaalcantara.00
Bruna Alcantara, jornalista, artista visual, idealizadora do manifesto Mães Também Gozam e mãe do Tom, comenta que a ideia do projeto surgiu a partir da necessidade de reivindicar o prazer sexual das mulheres mães. A pesquisa artística explora diferentes campos da cultura e dos canais de informação para trabalhar as relações dos corpos femininos no contexto social e histórico.
A frase que contempla o manifesto parece simples, mas derruba um estigma profundo: a sexualidade pós maternidade.
Ao contrário do que se induz, 73% das mulheres disseram manter relações sexuais no pós-parto e 22% afirmam notar uma melhora na qualidade do sexo – de acordo com pesquisa da Peanut, empresa de encontros dos Estados Unidos, Canadá e Reino Unido, realizada em 2018.
Bruna comenta o tabu sobre a vida sexual das mães: “Isso tem muito a ver com o catolicismo. Nos colocam naquela percepção endeusada – uma figura central com a criança no colo, de forma santificada. Criou-se o ideal de que ‘mãe é sagrada’, e isso conflita com a representação do sexo através da religião, que é tido como algo sujo e sem valor”.
Na verdade, o sexo também é sagrado, bem como a capacidade de gozar. De acordo com a psicóloga Ana Canosa, em entrevista à CNN Brasil, “se toda mulher tivesse um orgasmo por dia, o mundo seria outro”. Os benefícios desse acúmulo de excitação, além do prazer, são diversos. Em entrevista à Vogue, a sexóloga Megwyn White destaca que uma vida sexual satisfatória impacta em maior longevidade. “Sentir orgasmos com regularidade auxilia no equilíbrio hormonal, ameniza dor e stress, otimiza o sono e reforça o sistema imunológico”. Por isso, mães também gozam e se, por algum motivo não gozam, deveriam gozar.