De acordo com o dicionário de Oxford, culpa pode ser definida como: consciência mais ou menos penosa de ter descumprido uma norma social e/ou um compromisso (afetivo, moral, institucional) assumido livremente. É assim que se sente a maioria das mulheres a partir do momento em que se tornam mães, afinal, quem nunca ouviu o ditado que diz “quando nasce um filho, nasce a culpa”?
Seja para sair, para ir ao médico, para trabalhar ou para se divertir com as amigas, a culpa sempre dá um jeito de estar presente na maternidade. E é claro que esse sentimento não vem “do nada”, mas sim acompanhado de diversos olhares e palavras de julgamento por parte da sociedade. Daniele Linhares é mãe e psicóloga perinatal, especializada em mães e pós-parto, e estudou os impactos da chegada dos filhos na vida da mulher. Para Linhares, “maternar dá trabalho” e este trabalho foi recheado de culpabilização para que a mulher se ocupasse dos filhos e da casa somente.
A culpa materna, muitas vezes, vem desse lugar de não corresponder a um ideal, que, na verdade, foi construído socialmente, que ninguém estava aqui para concordar, ninguém perguntou se era esse ideal de mãe que eu queria ser, e as mulheres muitas vezes ficam tentando corresponder a isso.
Daniele Linhares
Linhares destaca também que é esperado socialmente que as mães sintam uma conexão imediata com seus filhos, mas nem sempre é assim. Para algumas mulheres é preciso construir esse amor com tempo, pois a maternidade muda a rotina dessa mulher de uma hora para outra e para sempre. E outro fator que aumenta a culpa é o próprio julgamento da sociedade, de seus companheiros, ou até mesmo de outras mães. Você já deve ter ouvido mais de uma mulher falar para outras frases como “Se fosse o meu filho eu não deixava” ou “ Como você tem coragem de deixar seu filho com outra pessoa tanto tempo?”, entre outras semelhantes que só fazem o sentimento de insuficiência se intensificar.

Priscila Mazzucato e seu filho Joaquim.
Reprodução: Arquivo Pessoal.
Priscila Mazzucato tem 34 anos e é mãe do Joaquim, de quase 3 anos de idade. Antes de engravidar, ela nunca tinha pensado em ser mãe e, assim como descrito por Daniele, não sentiu de imediato uma conexão com seu filho, o que a levou a se questionar muitas vezes sobre o motivo por trás disso. Priscila enfrentou diversos obstáculos durante a sua gravidez, sendo a maior parte deles relacionado ao genitor de seu filho.
O pai de Joaquim esteve ausente durante quase 6 meses de sua vida e, até o momento da entrevista, Priscila seguia sem receber qualquer apoio por parte dele, seja emocionalmente ou financeiramente.
Mesmo após o envolvimento de um advogado e abertura de processo, nenhuma providência foi tomada por parte do progenitor. A próxima medida seria a prisão, mas Priscila conta não se sentir confortável com a ideia.
“Eu estou sem receber pensão desde que ele saiu de casa. Já entrei com a advogada e o próximo passo é se ele ser preso, mas aí eu fico num lugar de mais uma culpa da mãe que ‘Ah, se eu der esse passo, ele vai ser preso’. E aí, em algum momento, o meu filho vai saber que eu entrei com isso e o pai dele foi preso. Daí uma amiga minha me disse ‘mas a culpa é dele, não é sua’. Eu concordo, mas ainda me sinto mal, então eu prefiro não.”
A culpa vem em diversas formas e, mesmo em circunstâncias como a de Priscila, esse sentimento fala mais alto, impedindo que ela tome medidas mais eficazes sobre a situação. Mas é claro que as atitudes do pai não a prejudicam apenas na questão jurídica, mas também – e principalmente – na sua saúde mental diante de um contexto de maternidade solo.
Ela vive uma dupla jornada de trabalho, sendo mãe e tendo que trabalhar em período integral para sustentar a si mesmo e ao seu filho. Isso faz com que seja obrigada a deixar o Joaquim com diferentes redes de apoio, o que intensifica ainda mais o sentimento de culpa que ela carrega consigo.
Daniele Linhares conta que o paradigma vigente da maternidade de que a boa mãe é aquela que se doa completamente em termos físicos, emocionais, psicológicos e intelectuais gera frustração e culpa nas mulheres que têm filhos. “Cada vez mais, nos sentimos piores enquanto mães. Temos sentido mais medo, estamos mais confusas e nos sentimos inferiores. Essa sensação de ineficácia afeta nosso bem-estar físico, nossa saúde mental e a nossa capacidade de sermos boas o suficiente no papel de mãe”, afirma a psicóloga.
Priscila Mazzucato e seu filho Joaquim. Reprodução: Arquivo Pessoal.
Outra mãe que vivencia o sentimento de culpa materna é Bianca Gabrielle, que vive uma tripla jornada de trabalho: trabalhando, estudando e sendo mãe do Vicente, de 1 ano e 2 meses de idade.
Bianca foi mãe muito nova e, apesar de ter uma rede de apoio bem estruturada, ela procura maneiras de sustentar a vida com o seu filho da forma mais confortável possível. A rotina de Bianca, no entanto, não permite que ela consiga passar muitas horas do seu dia com o Vicente, e assim, mais uma vez, o sentimento de culpa se mostra presente.

Bianca Gabrielle e seu filho Vicente.
Reprodução: Arquivo Pessoal
... eu sinto muita culpa, muita culpa mesmo, o tempo todo. De não dormir com ele, de deixar o dia inteiro na creche, e a sociedade me faz sentir culpada também, sabe? `Como assim você deixa seu filho o dia inteiro na creche?' 'Como assim seu filho dorme com a sua mãe?
Bianca Gabrielle
Valeska Zanello, especialista e pesquisadora referência da área de saúde mental e gênero, explica mais sobre o assunto por meio de suas redes sociais. Em alguns artigos publicados, ela afirma que esse sentimento foi injetado nas mães, e a sociedade, as propagandas e até mesmo a própria família seguem constantemente reforçando esse sentimento.
E este é exatamente o caso de Bianca, que se sente na obrigação de provar diariamente, para todos a sua volta, o seu valor como mãe.
As mulheres vivem constantemente com a cobrança de ser uma mãe perfeita. O homem, por outro lado, dificilmente é cobrado de suas obrigações e quando faz o mínimo que se é esperado dele recebe uma chuva de elogios como: “Nossa que paizão!”
Valeska Zanello, por meio de seus artigos, traz críticas a esse comportamento. Ela explica que cuidar não é uma capacidade exclusivamente feminina, mas sim uma capacidade humana. Dessa forma, a função de cuidar não deveria ser delegada somente à mãe.
A pesquisadora aponta também que em mais de 20 anos de consultório, nunca viu uma mãe que não se sentisse culpada. E todo esse ideal que é construído de uma maternidade perfeita é um dos fatores que resulta nessa culpa.
Bianca Gabrielle e seu filho Vicente. Reprodução: Arquivo Pessoal
Entre as mães que entrevistamos, uma delas destacou o fato de ter consciência dessa culpa ser algo imposta pela sociedade e afirma que aos poucos tem conseguido se livrar desse sentimento. Cintia Caldas engravidou aos 27 anos e descobriu a gestação quando não estava mais em um relacionamento com o pai de seu filho. Ao longo da sua jornada como mãe, ela relata ter tido dificuldades em lidar com o julgamento familiar, mas que hoje não se martiriza mais com a culpa.
Eu tenho noção de que se eu tivesse num relacionamento com uma pessoa parceira eu conseguiria fazer tudo muito melhor, mas essa não é a estrutura que eu tenho. Então, dentro do que eu tenho eu acredito que eu faço muito bem. Eu não me martirizo atualmente, mas no começo sim. Quando Daniel nasceu, durante um ano, eu sempre me culpava por tudo
Cintia Caldas
Em outras palavras, estamos vivendo um período de construção de um ideal de maternidade inatingível, e diante de um contexto onde mais de 11 milhões de famílias são compostas por mães solos, essa tão cobrada “maternidade perfeita” se torna ainda mais utópica. Mas então, que fazer para amenizar esse sentimento de culpa?
Para lidar com esse sentimento, Daniele Linhares apresentou algumas soluções. O primeiro passo é por meio da busca de informações e da compreensão que esse amor materno é construído. É importante que os bebês tenham trocas afetivas durante os primeiros anos de suas vidas, porém essas trocas não precisam – e nem devem – ser exclusivamente por parte das mães. É totalmente saudável que as crianças criem conexões com outras figuras responsáveis, como avós, redes de apoio pagas, e – como deveria ser óbvio – com o pai! Dessa forma, essas mulheres não devem se sentir culpadas por não conseguirem se dedicar única e exclusivamente para a função materna.

Cintia Caldas e seu filho Daniel.
Reprodução: Arquivo Pessoal.
A mãe não precisa estar presente o tempo todo, muito pelo contrário. Não é a quantidade de tempo que vai definir o apego ou a vinculação afetiva, mas sim a qualidade do tempo que se passa com aquele bebê. E em muitas situações, isso depende da mulher ter a oportunidade de exercer outros papéis, como sair para lazer, trabalhar ou até mesmo se envolver com outras pessoas. Isso vai fortalecê-la e fazer com que se sinta mais realizada e esteja bem emocionalmente, para que, nos períodos em que ela estiver com o filho, ela esteja e se sinta mais inteira.
O estudo Transmissão Intergeracional da Autocompaixão, realizado pela psicóloga Adriana Drulla, evidenciou que a autocompaixão das mães e a aceitação de suas dificuldades e limitações é transmitida também para as crianças e adolescentes. Portanto, uma relação mais transparente das mães consigo mesmas afeta positivamente os laços de afeto com os seus filhos.
No mural abaixo, reunimos relatos de várias mães que compartilharam suas histórias de culpa materna com o Mães Solo Brasil. Caso queira dividir sua história, deixe o seu relato aqui. Queremos te ouvir!
O objetivo desse recurso é, a partir de relatos diversos de mães que vivenciam a culpa, humanizar a maternidade e evidenciar que o sentimento em questão está intrínseco em meio à experiência que é tornar-se mãe. Alguns nomes foram alterados para que as personagens não fossem identificadas.
A maternidade traz em si uma solidão e com isso algumas culpas. Meu bebê tem quase 5 meses e as pessoas ao nosso redor nos cobram visitas e passeios, o que parece um pouco ilógico né?! O bebê ainda é pequeno e não tem imunidade, mas ok! Das poucas vezes em que tentei frequentar uma reunião de família, meu bebê estranhou muito, chorou, berrou e eu fiquei quase que o período inteiro em que estive nos locais, isolada. Minha culpa é por ‘forçar’ uma situação, uma vivência para a qual ele não estava pronto. A consequência, foram noites de estresse para ele, dificuldade de dormir e muito choro. Alguns poucos eventos depois vejo que a necessidade dele deve ser priorizada. Todo mundo terá oportunidade de conhecê-lo quando for a hora certa para ele. A culpa da mãe existe sempre, mas coloquei em minha cabeça que errei tentando acertar e que cada dia será de aprendizagem, crescimento e amadurecimento para nós dois. Uma hora vai dar certo.
Decidi terminar um relacionamento tóxico, com um cara que é de uma situação financeira muito superior à minha. E me sinto culpada por não conseguir oferecer a mesma qualidade de vida para o nosso filho e não ceder a guarda ao genitor. Embora ele possa suprir todas as demandas financeiras da criança, jamais seria capaz de um ato de afeto e criaria outro homem desequilibrado achando que dinheiro resolve tudo.
Minha gravidez não foi planejada, mas com 41 anos aconteceu. Não estava preparada para ser mãe. Começou aí minha culpa. Nos 4 primeiros meses de gravidez fiz terapia para entender que tudo ia mudar. Com 7 meses nem enxoval eu tinha comprado. Vivia numa relação abusiva com meu marido. Quando a gente cisma que precisa dar certo, não enxerga a realidade. Somos totalmente cegos! Veio a segunda culpa, só chorava e me lamentava. Meu leite secou. Pior que eu sonhava amamentar! Achava a coisa mais linda desse mundo! Não tive paciência nos 4 primeiros anos da minha filha. Eu gritava quando ela chorava, não era 100% presente, não brincava como uma mãe deveria brincar, enfim, cometi muitos erros. Daria tudo por uma segunda chance! Senti culpa por não ir embora com ela, pois era independente, tinha meu próprio apartamento e uma família que me daria total apoio. Sei que muita coisa ruim poderia ter sido evitada. Apesar de ter consciência que tive depressão pós parto, ainda choro de vez em quando pensando como seria se minhas escolhas tivessem sido outras. Só Deus tem as respostas. Minha única certeza é que ele me deu o maior presente do mundo! Não me arrependo da minha filha ter nascido porque eu sei que evolui muito por causa dela e continuo dia após dia desejando demais conseguir ser a melhor mãe do mundo. Assim vou conseguir me redimir. Aquela que ama um filho(a) de verdade jamais deveria sentir culpa! Só que nós mulheres somos constantemente cobradas pela sociedade e por nós mesmas.
Uma mãe amiga me falou certa vez que parece que "a culpa materna nasce junto com a placenta". Há bastante verdade nessa frase e eu sempre tentei não validá-la. Mas, apesar do meu esforço, tive sim culpa materna. A minha foi não poder pegar meu filho na saída da creche. Não vê-lo com a fantasia da dinâmica do dia, não ouvir as histórias que ele contava animado sobre seu dia. Ele fazia isso com a babá. Diante disso, além da culpa, cheguei a sentir ciúmes desses momentos dela com meu filho. Nem precisa refletir muito para ver a besteira que é essa culpa. Eu estava trabalhando para poder mantê-lo numa creche excelente e dar o melhor para ele. Eu estava em todos os outros momentos: eu o levava à creche; ia a todas as festas e eventos infantis; brincava com ele e até com seus amiguinhos; enfim, eu era muito presente na vida dele. A culpa era descabida, reconheço, mas mesmo sabendo disso ela me "assombrou" algumas vezes.
Ao meu ver, quando nasce uma criança nasce uma mãe com culpa junto. Cabe somente a nós entender quando essa culpa é legítima ou não. Já me senti culpada por várias vezes pelos mais variados motivos. Já chorei muito sem que eles soubessem, mas no final a gente entende que se estivermos presentes e atentas, seremos mais leves no relacionamento com nossos filhos. A conversa e a troca de experiências vividas ainda não foi substituída e se depender de mim nunca será.
Sou médica anestesista, minha jornada de trabalho é intensa. Muitas vezes saio de casa muito cedo e minha filha ainda está dormindo. Não consigo arrumá-la para ir à escola, fazer o cabelo, conferir o lanche… e no período da tarde me esforço para tentar buscar 2 vezes na semana. A falta de tempo é a maior culpa que carrego e busco diariamente alternativas de trabalho para poder ter esse domínio da minha agenda e tempo com minha filha, e foi isso que me fez fazer alcançar outras oportunidades de monetizar. Nesse ponto a dor da culpa está me movendo a encontrar alternativas de emprego que me satisfazem mais e me renovam como pessoa.
Eu tenho uma culpa em relação à minha filha, que costumava fazer reclamações sobre a escola e os professores, e eu nunca lhe dava razão. Sempre achei que os professores têm muitos problemas com os alunos, principalmente adolescentes. Pedia que ela se colocasse no lugar do professor, e tentasse imaginar como é difícil manter a disciplina dos alunos. Desta maneira, eu tentava não valorizar tanto o problema da minha filha. Um dia, quando ela tinha uns 16 anos, falou que ia à casa de amigas para conversar. Questionei por que ela nunca tinha assunto para falar comigo e sempre ficava ao telefone conversando com as amigas. Ouvi a seguinte resposta: "- Pra que falar com você? Você nunca me dá razão! Nunca foi à escola para saber por que o professor tinha agido assim ou assado comigo. Eu não queria que você fosse daquelas mães que estão sempre reclamando na coordenação da escola. Mas, pelo menos, poderia conversar com o professor, porque eu poderia ter razão." Naquele momento eu a abracei e pedi desculpas, e disse que minha intenção não era deixá-la desprotegida, mas sim que ela tivesse empatia com os professores, se colocando no lugar deles. "- A história tem dois lados e a gente precisa escutar." "- Eu sei", disse-me ela. Foi um momento de harmonia, mas sempre trago este assunto no meu coração, me sentindo culpada por não ter apoiado minha filha em situações em que ela necessitava
Tive dois filhos: aos 21, fui mãe pela primeira vez, de um menino, e depois, aos 23, tive minha segunda filha, uma menina. Mesmo durante as gestações e depois que eles nasceram, eu trabalhava muito. Na criação das crianças, eu tive a sorte de poder contar muito com a ajuda da minha mãe. Meus filhos eram ligadíssimos a ela. Mesmo sendo casada, naquela época, a gente sabe que os maridos não tinham o dever de ajudar no cuidado com os filhos. Essa é uma questão cultural que mudou muito nos tempos recentes: cuidar das crianças era um dever da mulher, da mãe e, na sequência, da avó. A infância passou e mesmo na adolescência eu nunca consegui fazer uma viagem com eles. Não consegui ter tempo para sairmos juntos, só nós, mãe e filhos, fosse para conversar, nos divertir, fazer um lanche em algum lugar... Quando lembro disso hoje, penso que adoraria ouvir o que eles gostariam de me falar... Comecei a perceber que havia falhado com eles quando, já crescidos e precisando de algum apoio, ou orientação, eles primeiro procuravam a minha mãe e, só depois, vinham até mim. O tempo que não tive com meus filhos fui reencontrar com minhas netas. Brinquei muito com elas, procurei passar o maior tempo possível juntas, sair, conversar, ler histórias, jogar, levá-las ao cinema, ao ballet, às aulas de hipismo. Hoje sei que poderia ter tido uma convivência e proximidade muito maior com meus filhos. Atualmente, quando converso com mulheres que são mães e que reclamam da falta de tempo e da sobrecarga de trabalhos, eu falo do meu arrependimento e digo pra elas dedicarem nem que seja cinco minutinhos do seu dia para estar só com seus filhos, um tempo que, mesmo curto, possa ter aquela qualidade de atenção plena que faz toda a diferença em nossas vidas: poder usufruir com quem mais amamos o melhor da vida.
Talvez nós mães teremos sempre esse sentimento toda vez que não podemos realizar um desejo de um filho ou filha, mas damos a eles oportunidades de crescimento e conhecimento e maturidade. Mas no fundo, sabemos que falhamos por falta de dinheiro ou até mesmo de conhecimento. Hoje penso que meu filho se fez sozinho pois eu havia falhado no começo de sua educação por falta de dinheiro. Mas ele cresceu com dignidade em suas próprias escolhas. Sinto ainda em alguns momentos lá no fundo da minha alma a culpa que acho que sempre levarei comigo por não ter feito mais. Mas sempre agradeço por ele ter crescido com honestidade e amoroso com todos ao seu redor. Fui abençoada.
A culpa materna está presente até mesmo antes do meu filho nascer, com quais escolhas devemos fazer, como devemos agir… Hoje, meu filho tem 1 ano e não tem um dia que eu não me sinta culpada por pequenas coisas. Seja por querer sair pra trabalhar (e não conseguir), por precisar de um tempo pra mim mesma, por querer comer uma comida quente, ou pelas escolhas que faço por ele, como cama compartilhada, privação de açúcar… A maternidade é difícil, um leão por dia. E a culpa materna sempre está presente.
A maternidade traz em si uma solidão e com isso algumas culpas. Meu bebê tem quase 5 meses e as pessoas ao nosso redor nos cobram visitas e passeios, o que parece um pouco ilógico né?! O bebê ainda é pequeno e não tem imunidade, mas ok! Das poucas vezes em que tentei frequentar uma reunião de família, meu bebê estranhou muito, chorou, berrou e eu fiquei quase que o período inteiro em que estive nos locais, isolada. Minha culpa é por ‘forçar’ uma situação, uma vivência para a qual ele não estava pronto. A consequência, foram noites de estresse para ele, dificuldade de dormir e muito choro. Alguns poucos eventos depois vejo que a necessidade dele deve ser priorizada. Todo mundo terá oportunidade de conhecê-lo quando for a hora certa para ele. A culpa da mãe existe sempre, mas coloquei em minha cabeça que errei tentando acertar e que cada dia será de aprendizagem, crescimento e amadurecimento para nós dois. Uma hora vai dar certo.
Decidi terminar um relacionamento tóxico, com um cara que é de uma situação financeira muito superior à minha. E me sinto culpada por não conseguir oferecer a mesma qualidade de vida para o nosso filho e não ceder a guarda ao genitor. Embora ele possa suprir todas as demandas financeiras da criança, jamais seria capaz de um ato de afeto e criaria outro homem desequilibrado achando que dinheiro resolve tudo.
Minha gravidez não foi planejada, mas com 41 anos aconteceu. Não estava preparada para ser mãe. Começou aí minha culpa. Nos 4 primeiros meses de gravidez fiz terapia para entender que tudo ia mudar. Com 7 meses nem enxoval eu tinha comprado. Vivia numa relação abusiva com meu marido. Quando a gente cisma que precisa dar certo, não enxerga a realidade. Somos totalmente cegos! Veio a segunda culpa, só chorava e me lamentava. Meu leite secou. Pior que eu sonhava amamentar! Achava a coisa mais linda desse mundo! Não tive paciência nos 4 primeiros anos da minha filha. Eu gritava quando ela chorava, não era 100% presente, não brincava como uma mãe deveria brincar, enfim, cometi muitos erros. Daria tudo por uma segunda chance! Senti culpa por não ir embora com ela, pois era independente, tinha meu próprio apartamento e uma família que me daria total apoio. Sei que muita coisa ruim poderia ter sido evitada. Apesar de ter consciência que tive depressão pós parto, ainda choro de vez em quando pensando como seria se minhas escolhas tivessem sido outras. Só Deus tem as respostas. Minha única certeza é que ele me deu o maior presente do mundo! Não me arrependo da minha filha ter nascido porque eu sei que evolui muito por causa dela e continuo dia após dia desejando demais conseguir ser a melhor mãe do mundo. Assim vou conseguir me redimir. Aquela que ama um filho(a) de verdade jamais deveria sentir culpa! Só que nós mulheres somos constantemente cobradas pela sociedade e por nós mesmas.
Uma mãe amiga me falou certa vez que parece que "a culpa materna nasce junto com a placenta". Há bastante verdade nessa frase e eu sempre tentei não validá-la. Mas, apesar do meu esforço, tive sim culpa materna. A minha foi não poder pegar meu filho na saída da creche. Não vê-lo com a fantasia da dinâmica do dia, não ouvir as histórias que ele contava animado sobre seu dia. Ele fazia isso com a babá. Diante disso, além da culpa, cheguei a sentir ciúmes desses momentos dela com meu filho. Nem precisa refletir muito para ver a besteira que é essa culpa. Eu estava trabalhando para poder mantê-lo numa creche excelente e dar o melhor para ele. Eu estava em todos os outros momentos: eu o levava à creche; ia a todas as festas e eventos infantis; brincava com ele e até com seus amiguinhos; enfim, eu era muito presente na vida dele. A culpa era descabida, reconheço, mas mesmo sabendo disso ela me "assombrou" algumas vezes.
Ao meu ver, quando nasce uma criança nasce uma mãe com culpa junto. Cabe somente a nós entender quando essa culpa é legítima ou não. Já me senti culpada por várias vezes pelos mais variados motivos. Já chorei muito sem que eles soubessem, mas no final a gente entende que se estivermos presentes e atentas, seremos mais leves no relacionamento com nossos filhos. A conversa e a troca de experiências vividas ainda não foi substituída e se depender de mim nunca será.
Sou médica anestesista, minha jornada de trabalho é intensa. Muitas vezes saio de casa muito cedo e minha filha ainda está dormindo. Não consigo arrumá-la para ir à escola, fazer o cabelo, conferir o lanche… e no período da tarde me esforço para tentar buscar 2 vezes na semana. A falta de tempo é a maior culpa que carrego e busco diariamente alternativas de trabalho para poder ter esse domínio da minha agenda e tempo com minha filha, e foi isso que me fez fazer alcançar outras oportunidades de monetizar. Nesse ponto a dor da culpa está me movendo a encontrar alternativas de emprego que me satisfazem mais e me renovam como pessoa.
Ao meu ver, quando nasce uma criança nasce uma mãe com culpa junto. Cabe somente a nós entender quando essa culpa é legítima ou não. Já me senti culpada por várias vezes pelos mais variados motivos. Já chorei muito sem que eles soubessem, mas no final a gente entende que se estivermos presentes e atentas, seremos mais leves no relacionamento com nossos filhos. A conversa e a troca de experiências vividas ainda não foi substituída e se depender de mim nunca será.
Tive dois filhos: aos 21, fui mãe pela primeira vez, de um menino, e depois, aos 23, tive minha segunda filha, uma menina. Mesmo durante as gestações e depois que eles nasceram, eu trabalhava muito. Na criação das crianças, eu tive a sorte de poder contar muito com a ajuda da minha mãe. Meus filhos eram ligadíssimos a ela. Mesmo sendo casada, naquela época, a gente sabe que os maridos não tinham o dever de ajudar no cuidado com os filhos. Essa é uma questão cultural que mudou muito nos tempos recentes: cuidar das crianças era um dever da mulher, da mãe e, na sequência, da avó. A infância passou e mesmo na adolescência eu nunca consegui fazer uma viagem com eles. Não consegui ter tempo para sairmos juntos, só nós, mãe e filhos, fosse para conversar, nos divertir, fazer um lanche em algum lugar... Quando lembro disso hoje, penso que adoraria ouvir o que eles gostariam de me falar... Comecei a perceber que havia falhado com eles quando, já crescidos e precisando de algum apoio, ou orientação, eles primeiro procuravam a minha mãe e, só depois, vinham até mim. O tempo que não tive com meus filhos fui reencontrar com minhas netas. Brinquei muito com elas, procurei passar o maior tempo possível juntas, sair, conversar, ler histórias, jogar, levá-las ao cinema, ao ballet, às aulas de hipismo. Hoje sei que poderia ter tido uma convivência e proximidade muito maior com meus filhos. Atualmente, quando converso com mulheres que são mães e que reclamam da falta de tempo e da sobrecarga de trabalhos, eu falo do meu arrependimento e digo pra elas dedicarem nem que seja cinco minutinhos do seu dia para estar só com seus filhos, um tempo que, mesmo curto, possa ter aquela qualidade de atenção plena que faz toda a diferença em nossas vidas: poder usufruir com quem mais amamos o melhor da vida.
Talvez nós mães teremos sempre esse sentimento toda vez que não podemos realizar um desejo de um filho ou filha, mas damos a eles oportunidades de crescimento e conhecimento e maturidade. Mas no fundo, sabemos que falhamos por falta de dinheiro ou até mesmo de conhecimento. Hoje penso que meu filho se fez sozinho pois eu havia falhado no começo de sua educação por falta de dinheiro. Mas ele cresceu com dignidade em suas próprias escolhas. Sinto ainda em alguns momentos lá no fundo da minha alma a culpa que acho que sempre levarei comigo por não ter feito mais. Mas sempre agradeço por ele ter crescido com honestidade e amoroso com todos ao seu redor. Fui abençoada.
A culpa materna está presente até mesmo antes do meu filho nascer, com quais escolhas devemos fazer, como devemos agir… Hoje, meu filho tem 1 ano e não tem um dia que eu não me sinta culpada por pequenas coisas. Seja por querer sair pra trabalhar (e não conseguir), por precisar de um tempo pra mim mesma, por querer comer uma comida quente, ou pelas escolhas que faço por ele, como cama compartilhada, privação de açúcar… A maternidade é difícil, um leão por dia. E a culpa materna sempre está presente.