MÃE É CULPA

Quando uma mulher se torna mãe,
a culpa nasce junto com o filho

O que é essa culpa e por que ela se manifesta?

De acordo com o dicionário de Oxford, culpa pode ser definida como: consciência mais ou menos penosa de ter descumprido uma norma social e/ou um compromisso (afetivo, moral, institucional) assumido livremente. É assim que se sente a maioria das mulheres a partir do momento em que se tornam mães, afinal, quem nunca ouviu o ditado que diz “quando nasce um filho, nasce a culpa”? 

Seja para sair, para ir ao médico, para trabalhar ou para se divertir com as amigas, a culpa sempre dá um jeito de estar presente na maternidade. E é claro que esse sentimento não vem “do nada”, mas sim acompanhado de diversos olhares e palavras de julgamento por parte da sociedade. Daniele Linhares é mãe e psicóloga perinatal, especializada em mães e pós-parto, e estudou os impactos da chegada dos filhos na vida da mulher. Para Linhares, “maternar dá trabalho” e este trabalho foi recheado de culpabilização para que a mulher se ocupasse dos filhos e da casa somente. 

A culpa materna, muitas vezes, vem desse lugar de não corresponder a um ideal, que, na verdade, foi construído socialmente, que ninguém estava aqui para concordar, ninguém perguntou se era esse ideal de mãe que eu queria ser, e as mulheres muitas vezes ficam tentando corresponder a isso.

Daniele Linhares

Linhares destaca também que é esperado socialmente que as mães sintam uma conexão imediata com seus filhos, mas nem sempre é assim. Para algumas mulheres é preciso construir esse amor com tempo, pois a maternidade muda a rotina dessa mulher de uma hora para outra e para sempre. E outro fator que aumenta a culpa é o próprio julgamento da sociedade, de seus companheiros, ou até mesmo de outras mães. Você já deve ter ouvido mais de uma mulher falar para outras frases como “Se fosse o meu filho eu não deixava” ou “ Como você tem coragem de deixar seu filho com outra pessoa tanto tempo?”, entre outras semelhantes que só fazem o sentimento de insuficiência se intensificar.

Priscila Mazzucato e seu filho Joaquim.
Reprodução: Arquivo Pessoal.

Priscila Mazzucato tem 34 anos e é mãe do Joaquim, de quase 3 anos de idade. Antes de engravidar, ela nunca tinha pensado em ser mãe e, assim como descrito por Daniele, não sentiu de imediato uma conexão com seu filho, o que a levou a se questionar muitas vezes sobre o motivo por trás disso. Priscila enfrentou diversos obstáculos durante a sua gravidez, sendo a maior parte deles relacionado ao genitor de seu filho. 

O pai de Joaquim esteve ausente durante quase 6 meses de sua vida e, até o momento da entrevista, Priscila seguia sem receber qualquer apoio por parte dele, seja emocionalmente ou financeiramente. 

Mesmo após o envolvimento de um advogado e abertura de processo, nenhuma providência foi tomada por parte do progenitor. A próxima medida seria a prisão, mas Priscila conta não se sentir confortável com a ideia. 

“Eu estou sem receber pensão desde que ele saiu de casa. Já entrei com a advogada e o próximo passo é se ele ser preso, mas aí eu fico num lugar de mais uma culpa da mãe que ‘Ah, se eu der esse passo, ele vai ser preso’. E aí, em algum momento, o meu filho vai saber que eu entrei com isso e o pai dele foi preso. Daí uma amiga minha me disse ‘mas a culpa é dele, não é sua’. Eu concordo, mas ainda me sinto mal, então eu prefiro não.”  

A culpa vem em diversas formas e, mesmo em circunstâncias como a de Priscila, esse sentimento fala mais alto, impedindo que ela tome medidas mais eficazes sobre a situação. Mas é claro que as atitudes do pai não a prejudicam apenas na questão jurídica, mas também – e principalmente – na sua saúde mental diante de um contexto de maternidade solo. 

Ela vive uma dupla jornada de trabalho, sendo mãe e tendo que trabalhar em período integral para sustentar a si mesmo e ao seu filho. Isso faz com que seja obrigada a deixar o Joaquim com diferentes redes de apoio, o que intensifica ainda mais o sentimento de culpa que ela carrega consigo. 

Daniele Linhares conta que o paradigma vigente da maternidade de que a boa mãe é aquela que se doa completamente em termos físicos, emocionais, psicológicos e intelectuais gera frustração e culpa nas mulheres que têm filhos. “Cada vez mais, nos sentimos piores enquanto mães. Temos sentido mais medo, estamos mais confusas e nos sentimos inferiores. Essa sensação de ineficácia afeta nosso bem-estar físico, nossa saúde mental e a nossa capacidade de sermos boas o suficiente no papel de mãe”, afirma a psicóloga.

Priscila Mazzucato e seu filho Joaquim. Reprodução: Arquivo Pessoal.

Outra mãe que vivencia o sentimento de culpa materna é Bianca Gabrielle, que vive uma tripla jornada de trabalho: trabalhando, estudando e sendo mãe do Vicente, de 1 ano e 2 meses de idade. 

Bianca foi mãe muito nova e, apesar de ter uma rede de apoio bem estruturada, ela procura maneiras de sustentar a vida com o seu filho da forma mais confortável possível. A rotina de Bianca, no entanto, não permite que ela consiga passar muitas horas do seu dia com o Vicente, e assim, mais uma vez, o sentimento de culpa se mostra presente. 

Bianca Gabrielle e seu filho Vicente.
Reprodução: Arquivo Pessoal

... eu sinto muita culpa, muita culpa mesmo, o tempo todo. De não dormir com ele, de deixar o dia inteiro na creche, e a sociedade me faz sentir culpada também, sabe? `Como assim você deixa seu filho o dia inteiro na creche?' 'Como assim seu filho dorme com a sua mãe?

Bianca Gabrielle

Valeska Zanello, especialista e pesquisadora referência da área de saúde mental e gênero, explica mais sobre o assunto por meio de suas redes sociais. Em alguns artigos publicados, ela afirma que esse sentimento foi injetado nas mães, e a sociedade, as propagandas e até mesmo a própria família seguem constantemente reforçando esse sentimento. 

E este é exatamente o caso de Bianca, que se sente na obrigação de provar diariamente, para todos a sua volta, o seu valor como mãe.

As mulheres vivem constantemente com a cobrança de ser uma mãe perfeita. O homem, por outro lado, dificilmente é cobrado de suas obrigações e quando faz o mínimo que se é esperado dele recebe uma chuva de elogios como: “Nossa que paizão!”

Valeska Zanello, por meio de seus artigos, traz críticas a esse comportamento. Ela explica que cuidar não é uma capacidade exclusivamente feminina, mas sim uma capacidade humana. Dessa forma, a função de cuidar não deveria ser delegada somente à mãe. 

A pesquisadora aponta também que em mais de 20 anos de consultório, nunca viu uma mãe que não se sentisse culpada. E todo esse ideal que é construído de uma maternidade perfeita é um dos fatores que resulta nessa culpa.

Bianca Gabrielle e seu filho Vicente. Reprodução: Arquivo Pessoal

Entre as mães que entrevistamos, uma delas destacou o fato de ter consciência dessa culpa ser algo imposta pela sociedade e afirma que aos poucos tem conseguido se livrar desse sentimento.  Cintia Caldas engravidou aos 27 anos e descobriu a gestação quando não estava mais em um relacionamento com o pai de seu filho. Ao longo da sua jornada como mãe, ela relata ter tido dificuldades em lidar com o julgamento familiar, mas que hoje não se martiriza mais com a culpa.

Eu tenho noção de que se eu tivesse num relacionamento com uma pessoa parceira eu conseguiria fazer tudo muito melhor, mas essa não é a estrutura que eu tenho. Então, dentro do que eu tenho eu acredito que eu faço muito bem. Eu não me martirizo atualmente, mas no começo sim. Quando Daniel nasceu, durante um ano, eu sempre me culpava por tudo

Cintia Caldas

Em outras palavras, estamos vivendo um período de construção de um ideal de maternidade inatingível, e diante de um contexto onde mais de 11 milhões de famílias são compostas por mães solos, essa tão cobrada “maternidade perfeita”  se torna ainda mais utópica. Mas então, que fazer para amenizar esse sentimento de culpa? 

Para lidar com esse sentimento, Daniele Linhares apresentou algumas soluções. O primeiro passo é por meio da busca de informações e da compreensão que esse amor materno é construído. É importante que os bebês tenham trocas afetivas durante os primeiros anos de suas vidas, porém essas trocas não precisam – e nem devem – ser exclusivamente por parte das mães. É totalmente saudável que as crianças criem conexões com outras figuras responsáveis, como avós, redes de apoio pagas, e – como deveria ser óbvio – com o pai! Dessa forma, essas mulheres não devem se sentir culpadas por não conseguirem se dedicar única e exclusivamente para a função materna.

Cintia Caldas e seu filho Daniel.
Reprodução: Arquivo Pessoal.

A mãe não precisa estar presente o tempo todo, muito pelo contrário. Não é a quantidade de tempo que vai definir o apego ou a vinculação afetiva, mas sim a qualidade do tempo que se passa com aquele bebê. E em muitas situações, isso depende da mulher ter a oportunidade de exercer outros papéis, como sair para lazer, trabalhar ou até mesmo se envolver com outras pessoas. Isso vai fortalecê-la e fazer com que se sinta mais realizada e esteja bem emocionalmente, para que, nos períodos em que ela estiver com o filho, ela esteja e se sinta mais inteira.

O estudo Transmissão Intergeracional da Autocompaixão, realizado pela psicóloga Adriana Drulla, evidenciou que a autocompaixão das mães e a aceitação de suas dificuldades e limitações é transmitida também para as crianças e adolescentes. Portanto, uma relação mais transparente das mães consigo mesmas afeta positivamente os laços de afeto com os seus filhos. 

No mural abaixo, reunimos relatos de várias mães que compartilharam suas histórias de culpa materna com o Mães Solo Brasil. Caso queira dividir sua história, deixe o seu relato aqui. Queremos te ouvir!

Mural de relatos sobre Culpa Materna

O objetivo desse recurso é, a partir de relatos diversos de mães que vivenciam a culpa, humanizar a maternidade e evidenciar que o sentimento em questão está intrínseco em meio à experiência que é tornar-se mãe. Alguns nomes foram alterados para que as personagens não fossem identificadas.