SOLIDÃO
MATERNA

Mães enfrentam sozinhas oscilações hormonais, cansaço e sobrecarga

MÃES são FREQUENTEMENTE abandonadas por genitor, amigos e sociedade

Diante do contexto de sobrecarga materna e da economia do cuidado, a solidão torna-se um sentimento frequente no dia a dia das mães solo, mesmo em momentos que estão cercadas por familiares e amigos empolgados para pegar um recém-nascido no colo. 

Segundo a estrategista e mentora de mulheres Sheilla Antão, o sentimento de solidão surge a partir de todas as cargas colocadas sobre a mulher, visto a cultura social, muitas vezes fundamentada por uma estrutura patriarcal.

“Infelizmente, a gente vive numa sociedade em que os homens entendem que eles podem optar ou não pela paternidade, enquanto a mãe não tem esse poder de escolha. Então não é incomum que aconteça o abandono paterno, em que o homem simplesmente escolhe não ser pai da criança”, explica a especialista. Somado a isso, muitas vezes as pessoas ao redor de uma mãe acabam se afastando, ao invés de se aproximar. 

Nem sempre a sociedade apoia. As amigas, muitas vezes que não tem filhos, vão se afastando aos poucos, porque muda a dinâmica de vida. Assim, acaba que há um abandono geral e a mulher fica ali, tendo que lidar com todas as oscilações hormonais, cansaço, sobrecarga, completamente sozinha.

Sheilla Antão

A experiência de Letícia Bassit durante sua primeira gravidez e o puerpério (período pós-parto) revela o peso desse sentimento, que normalmente só é descoberto na prática, visto que se esconde por trás da idealização e da romantização da maternidade. 

Letícia Bassit. Fonte: Instagram @leticiabassit

Letícia engravidou pela primeira vez em 2017. Seu filho, Pedro, nasceu em julho de 2018, ano em que o Brasil contabilizou 93.000 crianças registradas sem o nome do pai (mais de 5% dos nascidos no período). Sua gravidez aconteceu em uma circunstância solitária e violenta, resultando em um contexto de dúvida de paternidade que, até hoje, não teve uma conclusão. Assim, desde o momento que descobriu a gravidez, Letícia encontrou-se sozinha. Segundo ela, vivenciar o puerpério sem apoio foi um dos piores momentos de sua vida.

REDE DE APOIO

A rede de apoio consiste em uma estrutura composta por pessoas e instituições que facilitem a jornada dos pais durante os cuidados com o bebê. Ela pode ser composta por familiares e amigos, por instituições (escolas, creches) ou profissionais pagos, como babá.

No caso de Letícia, ela conta que se preparar para sua segunda gestação – e, claro, ter um parceiro ao seu lado – tornou o processo um pouco mais fácil e menos solitário.

“É muito diferente você ter um companheiro, um pai, que pode levantar na madrugada e segurar para revezar com você. Eu amamento e posso passar para ele fazer dormir. Concretamente falando, é muito diferente, principalmente nas madrugadas. A carga da maternidade solo é um negócio assim: é só você, é única e exclusivamente você, é você o tempo todo”, relata.

Ao lembrar dos anos iniciais com seu primeiro filho, Letícia descreve a experiência como: eu prendi o ar e ainda não soltei. “Parece que até hoje eu estou assim. Eu nem sei como eu fazia. Eu dava banho com ele na cadeirinha, tomava banho de dois minutos, cantando e dançando para ele, já me enxugava, pegava ele no colo, amamentava. Ele acordava na madrugada de duas em duas horas então eu não dormia”, conta.

Letícia Bassit orientando o filho no dever de casa. Foto: Reprodução/@leticiabassit

Por fim, ela lembra que o machismo está incrustado culturalmente e socialmente e precisa ser combatido e questionado todos os dias: “Existe ainda o pensamento do pai provedor, da mãe que fica em casa cuidando do filho, o pai sai pra caçar, o pai sai para trazer dinheiro para colocar dentro, e a mãe está ali cuidando, zelando pelo lar e cuidando daquela criança, mas não é bem assim. A sociedade não funciona mais assim. Não dá para persistir com essa lógica. O cuidado precisa ser compartilhado”.

Nas situações em que há a ausência do genitor na vida da criança, na maioria das vezes, a rede de apoio das mães costuma estar dentro da própria família. É o caso de Mardie Esther Velasco, de 54 anos, mãe da Bruna, que hoje já é uma mulher adulta de 26. Ela conta que, sem a ajuda de seus pais, cuidar da filha na infância teria sido imensamente mais difícil.

Mardie Esther Velasco e sua filha Bruna.
Fonte: Arquivo Pessoal

“Eu teria que colocar a Bruna na escola o dia inteiro para conseguir trabalhar e não foi necessário. Meu pai e minha mãe levavam ela na natação, no inglês, buscavam… então acredito que, apesar da falta do pai dela, a gente teve muito apoio”, conta.

Além do suporte com as responsabilidades diárias, os avós de Bruna também colaboraram com algo tão importante quanto: o carinho e o amor.

 “A vida tirou o pai dela e eu sentia que precisava compensar. Então como que eu compensaria colocando ela numa escola o dia todo? Ela sempre teve muito amor e a presença de pessoas que amam ela, graças ao meu pai e minha mãe. Infelizmente, nem todo mundo tem essa sorte”, relata Esther.

De fato, a rede de apoio é um privilégio que apenas uma minoria de mães brasileiras pode contar. De acordo com um levantamento da Fundação Getúlio Vargas (FGV), feito a partir de microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADC), a maior parte das mães solo (72,4%) reside em lares exclusivamente formados por elas e seus filhos, ou seja, não compartilham suas moradias com familiares ou outros membros que poderiam potencialmente auxiliar nas responsabilidades diárias e contribuir para um melhor equilíbrio entre vida pessoal, familiar e profissional.

Viviam de Oliveira, mãe da Manu, conta que, mesmo com a filha já tendo 13 anos, a rotina de trabalhar e ser mãe ainda é corrida: “É complicado, principalmente quando tem médico. Eu já tive que me afastar do trabalho ou pegar uma semana para cuidar dela. Ela fez cirurgia da tireoide e tirou as amígdalas. E sempre fui eu levando no médico. Eram momentos que eu, por ser mãe, sozinha, tinha que sair do trabalho mais cedo ou ficar além do meu horário depois”. 

Viviam de Oliveira e sua filha Manu.
Fonte: Arquivo Pessoal

A solidão não está apenas ligada à ideia de não ter com quem contar ou deixar o filho eventualmente. Na prática, esse sentimento também está relacionado ao fato de que frequentemente a mulher é a única ou a principal responsável pelos cuidados do dia a dia e pela tomada de decisões importantes sobre a criança. 

Nesse sentido, Viviam relata os desafios de lidar sozinha com o início da adolescência da filha: “Quando ela vai pra escola, é cada pergunta que ela traz que você fala: meu Deus, e agora? Não tem ninguém aqui para me ajudar a responder isso. É uma fase de muita curiosidade. A descoberta sexual, entender o que quer ser, o que espera do futuro”.

As preocupações são infinitas e a carga de não ter com quem compartilhar essa responsabilidade pode pesar até mesmo para as mães que tem uma rede de apoio bem estruturada. 

Ludjmilla Albuquerque, mãe da Bella, de 1 ano e 2 meses, reconhece que vive uma realidade privilegiada, em comparação a maioria das mães do país: boas condições financeiras, que a permitem se dedicar integralmente a filha, uma família presente e um companheiro que, embora não seja o genitor, busca ser parceiro e auxiliar nas demandas parentais.

 

Ludjimilla Albuquerque e sua filha Bella
Fonte: Arquivo Pessoal

Ainda assim, em diversos momentos de sua trajetória como mãe, Ludjimilla se deparou com o sentimento de solidão.

“Tem escolhas que são muito difíceis de fazer sozinha. Coisas como escolher um pediatra, decidir se levo ou não no hospital… ele [o genitor] nunca participou de nada. Nem mesmo perguntando se ela está bem ou se preciso de alguma ajuda”, conta. 

ONDE CABE UMA MÃE?

Além de ter que se responsabilizar sozinha pelas tarefas do dia a dia, a mãe costuma ser a primeira a abdicar de outras prioridades na sua vida em prol dos cuidados com a criança. 

No caso das mães solo, especificamente, elas muitas vezes acabam sendo excluídas no âmbito social, por não terem com quem deixar o filho. Eventos, encontros com amigas e jantares fora de casa se tornam extremamente raros ou, até mesmo, inexistentes.

A sociedade, no geral, costuma ver crianças como inconvenientes em ambientes públicos. Mesmo que nem sempre exista de fato uma proibição, muitas mulheres se sentem repelidas de levarem seus filhos a alguns lugares, pois temem os olhares de julgamento caso a criança chore ou grite.

Um caso conhecido é o do bar Miúda, em São Paulo, que, em abril de 2022, impediu uma mãe – a fotógrafa Marcelle Cerutti – de entrar no estabelecimento para o aniversário de uma amiga por ela estar acompanhada do filho de 5 anos. O local, que era até mesmo pet-friendly (aceitam receber pets), exibia na porta a mensagem: “Aqui todos são bem-vindos”. Infelizmente, a realidade provou-se diferente. 

Após uma forte repercussão negativa na internet, o bar Miúda se pronunciou no Instagram e decidiu voltar atrás na decisão de proibir a presença de crianças. A mudança, entretanto, não apaga o constrangimento e a chateação vivenciados por Marcelle. E casos semelhantes se repetem diariamente nos mais variados locais e ocasiões.

Jade Lobo, doutoranda em Antropologia e pesquisadora do Núcleo de Identidades de Gênero e Subjetividades da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), relata que no início do seu doutorado enfrentou grandes dificuldades para conseguir alugar um apartamento. “Uma esmagadora maioria dizia: NÃO ACEITAMOS ANIMAIS NEM CRIANÇAS”, contou ela, na rede social X (antigo Twitter).

Segundo Sheilla Antão, a cultura brasileira sofre com a ausência de um senso colaborativo em relação às crianças. “Em algumas sociedades indígenas e africanas, que não foram tão afetadas pela colonização europeia, as pessoas têm a visão de que a criança é um novo ser vivo que chega. E, com isso, ele é responsabilidade de todos e não só daquela que o pariu”, conta.

Ainda, Sheilla aponta para a urgência de que sejam tomadas medidas privadas e governamentais para auxiliar as mães que não tem uma rede de apoio: “O ideal seria as empresas terem a obrigação – por lei – de acolher a criança também. O que a gente vê hoje em dia é que as empresas não admitem mulheres que têm filhos justamente por acreditarem que ela será a única responsável por cuidar dele”. 

Já no âmbito individual, aqueles que desejam ajudar uma mãe devem, primeiramente, perguntar em qual aspecto ela precisa de apoio. “Mesmo pessoas com boa intenção em ajudar, acabam opinando e desrespeitando a individualidade da mãe. Muitas vezes as avós, as amigas que já tiveram filhos, chegam com uma enxurrada de opiniões e de experiências próprias que, além de fragilizar ainda mais a mulher, não são uma regra. Então a melhor coisa é que, quem se dispõe a ajudar, saiba respeitar o que a mãe quer”, finaliza a especialista.